Origem e Formação Histórica
Antes da chegada dos colonizadores europeus, a região que atualmente corresponde ao município de Princesa Isabel era habitada por grupos indígenas que ocupavam o sertão paraibano há séculos. Em 1766, o desbravador Lourenço de Brito Correia requereu uma sesmaria à Casa da Torre de Garcia d’Ávila, abrangendo terras que mais tarde integrariam o território municipal.
Na área existia uma lagoa conhecida como Perdição, denominação que também passou a identificar a localidade. Posteriormente, a Fazenda Perdição tornou-se propriedade de Natália Maria do Espírito Santo. Nesse período, o padre Francisco Tavares Arcoverde idealizou a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora do Bom Conselho, contando com a doação de terras por diversas famílias da região.
As obras da capela tiveram início em 1857 e, ao seu redor, desenvolveu-se um núcleo populacional que passou a receber o nome de Bom Conselho, em homenagem à padroeira local.
Em 1875, o povoamento de Bom Conselho foi desmembrado administrativamente de Piancó e elevado à categoria de Vila, recebendo a denominação de Princeza. A nova condição administrativa favoreceu o crescimento econômico e populacional da localidade.
Em 15 de novembro de 1938, o município passou a adotar oficialmente o nome de Princesa Isabel, denominação mantida até os dias atuais.
A Revolta de Princesa
O episódio mais marcante da história do município ocorreu em 1930, durante o conflito que ficou conhecido como Revolta de Princesa.
Naquele contexto, o coronel José Pereira Lima, principal liderança política local, rompeu com o governo estadual liderado por João Pessoa. A divergência estava inserida em um cenário mais amplo de disputas políticas, econômicas e administrativas que envolviam setores influentes do sertão paraibano e o governo estadual.
As tensões aumentaram quando forças policiais foram deslocadas para o interior do estado. Em fevereiro de 1930, contingentes da Polícia Militar chegaram à região de Teixeira para executar medidas determinadas pelo governo estadual. Os acontecimentos registrados nesse período, incluindo prisões, buscas e intervenções em propriedades particulares, contribuíram para ampliar o clima de hostilidade entre as partes.
Entre os grupos políticos mais afetados estavam integrantes da família Dantas Vilar, tradicional liderança regional e aliada de José Pereira. Informado dos acontecimentos, o líder princesense mobilizou homens armados em apoio aos seus aliados, dando início aos confrontos que marcariam o desenrolar da Revolta de Princesa.
Nos meses seguintes, o movimento expandiu-se por diversas localidades do alto sertão paraibano. Durante esse período, o município chegou a proclamar-se Território Livre de Princesa, mantendo estruturas administrativas próprias enquanto perdurou o conflito.
Combates foram registrados em áreas correspondentes aos atuais municípios de Tavares, Manaíra, Juru, Água Branca e São José de Princesa. As estimativas sobre o número de vítimas variam conforme as fontes históricas consultadas, mas há consenso de que o conflito provocou significativa perda de vidas humanas e mobilizou grande contingente de combatentes de ambos os lados. Alguns escritos falam em mais de 2.000 homens incorporados pelas forças princesenses.
A resistência organizada por José Pereira impediu o avanço das forças estaduais sobre o núcleo urbano de Princeza durante boa parte do conflito. Além do apoio de lideranças regionais, o movimento contou com solidariedade política e logística de grupos influentes do Nordeste, circunstância que contribuiu para sua capacidade de resistência.
O governo de João Pessoa e a Aliança Liberal
O ano de 1930 foi marcado por intensas transformações no cenário político brasileiro. Encerrando seu mandato presidencial, Washington Luís apoiou a candidatura de Júlio Prestes à sucessão presidencial, decisão que rompeu o arranjo político conhecido como Política do Café com Leite, caracterizado pela alternância de lideranças de São Paulo e Minas Gerais na Presidência da República.
Como reação, lideranças de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba organizaram a Aliança Liberal, movimento político que lançou Getúlio Vargas, então governador do Rio Grande do Sul, como candidato à Presidência da República. Após negociações que contaram com a participação de importantes lideranças nacionais, entre elas o ex-presidente Epitácio Pessoa, o governador paraibano João Pessoa foi escolhido para compor a chapa como candidato à vice-presidência.
Na Paraíba, João Pessoa havia assumido o governo estadual em 1928, sucedendo João Suassuna. Seu governo promoveu medidas voltadas ao fortalecimento da arrecadação estadual, ao combate à sonegação fiscal e à reorganização administrativa do Estado. Essas ações, entretanto, provocaram reações em setores tradicionais da política sertaneja, especialmente entre lideranças acostumadas a exercer ampla influência nas decisões governamentais.
As divergências entre o governo estadual e parte das lideranças do interior tornaram-se cada vez mais evidentes. Entre os dissidentes encontravam-se o deputado José Pereira Lima, o ex-governador João Suassuna e integrantes da influente família Dantas Vilar, de Teixeira, além de outros chefes políticos regionais.
Entre os opositores do governo destacava-se o advogado João Duarte Dantas. Por meio de artigos e manifestações políticas, Dantas tornou-se uma das principais vozes contrárias à administração estadual. O debate político ganhou intensidade na imprensa da época, especialmente entre o jornal pernambucano Jornal do Commercio e o periódico oficial paraibano A União.
A tensão atingiu seu ponto máximo em julho de 1930, quando correspondências e documentos pessoais de João Dantas foram divulgados pelo jornal A União após uma operação policial realizada em seu escritório. Entre os documentos publicados estavam cartas relacionadas ao seu relacionamento com a professora e poetisa Anaíde Beiriz.
O episódio provocou forte repercussão política e pessoal. Segundo diversos relatos históricos, João Dantas considerou a divulgação uma grave violação de sua intimidade e honra, circunstância que contribuiria decisivamente para os acontecimentos que se seguiriam.
Enquanto isso, as eleições presidenciais haviam sido concluídas. Júlio Prestes foi declarado vencedor do pleito. Apesar do resultado eleitoral, o ambiente político nacional permanecia marcado por tensões e disputas que se agravariam nos meses seguintes.
Na Paraíba, o governo estadual continuava enfrentando os efeitos da Revolta de Princesa, conflito que exigia mobilização constante de recursos humanos, financeiros e militares, ampliando as dificuldades administrativas enfrentadas pelo Estado.
A morte de João Pessoa e o fim da Revolta de Princesa
Em 26 de julho de 1930, João Pessoa viajou ao Recife para cumprir compromissos pessoais e políticos. Durante sua permanência na capital pernambucana, dirigiu-se à tradicional Confeitaria Glória, localizada no centro da cidade.
Na tarde daquele dia, João Duarte Dantas encontrou o governador no estabelecimento. O encontro resultou em um atentado que culminou na morte de João Pessoa. Após efetuar os disparos, Dantas tentou deixar o local, mas acabou detido por populares e entregue às autoridades.
O assassinato provocou enorme comoção em todo o país. A repercussão ultrapassou as fronteiras da Paraíba e rapidamente transformou o episódio em um dos acontecimentos políticos mais relevantes daquele período.
No contexto da Revolta de Princesa, a morte de João Pessoa produziu efeitos imediatos. José Pereira decidiu encerrar a resistência armada, entendendo que a principal motivação política do conflito havia sido alterada pelos acontecimentos ocorridos em Recife.
Pouco tempo depois, o governo federal determinou o envio de tropas do Exército à região com o objetivo de restabelecer a ordem, promover o desarmamento dos combatentes e assegurar a pacificação do território. A presença militar contribuiu para o encerramento definitivo do conflito e para a retomada da normalidade administrativa no município.
Paralelamente, a morte de João Pessoa passou a ocupar posição central no debate político nacional. Lideranças da Aliança Liberal utilizaram o episódio como símbolo da crise política que atravessava o país, fortalecendo a mobilização contra o governo federal.
Nos meses seguintes, manifestações populares, articulações políticas e movimentações militares ampliaram a instabilidade institucional brasileira. Em outubro, a Revolução de 1930 levou à deposição do presidente Washington Luís e marcou o início de uma nova etapa da história política nacional, sob a liderança de Getúlio Vargas.
Embora historiadores apresentem diferentes interpretações sobre as causas e consequências desses acontecimentos, há consenso quanto à relevância da morte de João Pessoa para a intensificação do processo político que culminou na mudança de regime ocorrida naquele ano.
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